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Escrito por Rafael Francisco Antoniolli   
14-Set-2008
 

Um tabu para as próximas gerações. Ou será parte da nossa ainda? Não sei. O assunto que a BusinessWeek trouxe na capa de sua edição de duas semanas atrás é extremamente polêmico, e se você que tá aí acredita que "todos os detalhes da nossa vida podem ser colocados dentro de banco de dados" sinta-se a vontade. Quem diz isto? Stephen Baker e seu Numerati!

Já andei escrevendo recentemente sobre como a associação de complexas equações matemáticas pode fazer a felicidade de muitos casais e dar ao mesmo tempo muito dinheiro. O eHarmony pode ser um exemplo de como a correta interpretação de algumas informações pode sim prever vários acontecimentos.

Porém, o que o Numerati nos conta em um de seus capítulos é intrigante. O autor foi até a IBM descobrir e trazer detalhes sobre um projeto onde estão sendo mapeados dados de 50 mil funcionários da empresa americana. Histórico profissional, avaliações de desempenho, rastreamento de e-mails e gravações telefônicas. Tudo é válido.

O objetivo? Criar modelos matemáticos de perfis para cada trabalhador. Inclui capacitação técnica, custo da mão de obra e localização geográfica. A gestão de pessoas torna-se automatizada, e os custos dos projetos caem vertiginosamente com isso. Pode parecer meio louco, mas a revista trata toda essa inovação como sendo a "Commoditização dos trabalhadores".

Quando li a reportagem fiquei pensando se era uma boa trazer este assunto pra cá. Sério, pra mim pareceu ser algo do tipo "1984 - George Orwell" ou até mesmo um alarde forte para ferramentas como Orkut, Facebook, LinkedIn ou eHarmony apenas com a diferença do foco. Resumindo, um sensacionalismo sem muita profundidade.

Mas mudei de opinião ao ver que tinha "apenas" 50 comentários falando sobre o tema. Não podia também deixar de dar o meu pitaco aqui pra vocês!

A revista faz um paralelo interessante com o histórico da gestão no mundo e como a matemática influenciou esse processo ao longo do tempo. Começa no "Taylorismo", "Just in Time", "6 Sigma" e chega até os "Modelos de Trabalhadores" da IBM. Acredito que quem tá lendo esse artigo deve estar pensando no seu próprio trabalho. Não precisa ser um admnistrador de empresas. É aplicável pra tudo. Se quisermos montar um escritório de advocacia, hospital ou uma construtora civil, todo e qualquer profissional estaria apto a ser rastreado no programa da IBM.

Esta intenção se justifica no sentido que caminhamos para uma indústria de serviços, onde o capital humano é muito mais exigido do que as máquinas. Para elas já existem tecnologias de automação sofisticadas, e Aleksandra Mojsilovic - consultora da IBM - diz que chegou a nossa vez:

"Uma vez que a companhia tenha criado perfis matemáticos consistentes de seus trabalhadores, será possível identificar ao menos algumas experiências ou rotinas que façam A ou B serem tão bons. Não estou dizendo que você pode recriar um cientista, ou pintor ou músico. Mas há com certeza muitos trabalhos e funções que são realmente commodities. Se a pessoa se tornar um trabalhador com aptidão para funções meramente operacionais ela poderá ser reconfigurada - primeiro matematicamente, depois em vida."

Alguns pontos que acho críticos para este projeto:

1 - A turma do direito pode dar melhores subsídios do que eu quando falo em aspectos jurídicos para poder colher tantas informações privadas dos trabalhadores. Corporações com escala global - como a própria IBM - encontrariam dificuldades para empreender um projeto em lugares diferentes ao mesmo tempo. O trabalhador no Brasil tem direitos distintos dos da Polônia por exemplo. No início do ano escrevi sobre a pesquisa da Microsoft na criação de um software que permitiria ao empregador saber os estados de ânimo do trabalhador durante o expediente. Quem é que sabe o que está sendo feito para discutir legalmente a Segurança da Informação? O Big Brother talvez esteja mais próximo do que imaginamos.

2 - A gestão de um banco de dados desse porte é hoje uma fraqueza. Eu como empregador não teria a percepção exata que o perfil do "João" seria aquele mesmo. Por isso a minha dúvida é se discutiremos esse tabu ainda nesta geração ou nas próximas que virão. Será que a tecnologia é tão rápida assim?

3 - Limitação para alguns tipos de trabalho. Aqui está o ponto que eu acho mais discutível! Por exemplo, como que eu vou mensurar matematicamente um gerente comercial? Além da técnica para determinada posição de trabalho penso que os ativos de relacionamento são tão ou até mais importantes! Não acredito ser possível este tipo de padronização. Usar métodos quantitativos para medir as relações humanas é como tirar a "alma" dos negócios!

Se todas as ciências de vanguarda estão fazendo pesquisas e métodos objetivando a "prevenção", acredito ser muito saudável esta discussão. A biotecnologia está se saindo muito bem nesse campo, e se parar pra pensar no que anda acontecendo eu poderia colocar vários outros exemplos aqui. Agora, prever trabalhadores e fazer disto um mercado vai contra muitas coisas positivas que temos visto. O Google é um exemplo e até certo ponto uma antítese. Grandes idéias pipocam a todo momento. Sinceramente, não acho que os colaboradores de lá poderiam ser traduzidos em números.

Bom, se a IBM trouxer uma inovação dessas para automatizar alguns políticos no Brasil já seria de GRANDE ajuda!

 


 

Assista abaixo a entrevista do autor Stephen Baker para a revista Business Week!

 

 

 


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Comentarios (3)Add Comment
...
escrito por Juliana, setembro 19, 2008
Lembremos que as disciplinas escolares são classificadas como "humanas" e "exatas". Acho a discussão válida e penso que cairá sim sobre nossas gerações. Entendo que a tecnologia sempre nos servirá para oferecer ferramentas que facilitem nossa vida, mas nada substitui o olho-no-olho na hora de efetivar uma contratação.

"Navegar é preciso. Viver não é preciso." Não lembro de quem é esta afirmação, mas tem tudo a ver com o assunto...
...
escrito por leinad, setembro 17, 2008
Em primeiro lugar meus cumprimentos pelos sempre intrigantes e novíssimos assuntos que tens abordado em teus artigos.
Em segundo lugar quero dizer que não tenho dúvidas de que este assunto será discutido na tua geração e não demora muito.
...
escrito por Rodrigo Almeida, setembro 15, 2008
Discordo quando diz que não temos tecnologia pra isso nesse momento. Agora, essa minha discordância pode fazer que a nossa geração (como referiste) passe por esse modelo da IBM. A IBM, aliás, que criou a tecnologia dos cartões perfurados na contagem dos judeus nos campos de concentração da 2ª guerra mundial...

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