O software livre está cada dia mais presente em nossas vidas. Talvez muitas pessoas não saibam disso. Por exemplo, você sabia que um dos mais importantes navegadores de internet, o Mozilla Firefox, é um software livre? Que o Brasil é referência nesta área? Que um dos maiores eventos do segmento acontece em solo brasileiro há nove anos? Eu tenho aprendido muito sobre esse tema ao participar das últimas edições do Fórum Internacional Software Livre (fisl), em Porto Alegre, e resolvi compartilhar com os leitores algumas informações através da entrevista com o embaixador da Associação Software Livre.Org, Sady Jacques.
FYI - O que é um software livre?
Sady Jacques - A categoria dos softwares considerados livres engloba códigos programados que são disponibilizados de forma integral (código objeto e código fonte), sob licenças que permitem não apenas o uso, mas a modificação e distribuição, preservando sempre o registro da autoria de cada uma de suas partes. Estas licenças são várias, mas a mais conhecida e difundida corresponde à família GPL - General Public License (Licença Pública Geral).
FYI - O software livre é gratuito?
Sady Jacques - Conforme a definição, sim; o que não o torna sem custo, sem valor ou sem importância. Normalmente, o seu uso dependerá de pessoas que conheçam tecnicamente o assunto e, para isso, será necessário contratar a prestação de serviços.
FYI - Quais as vantagens do software livre em relação aos softwares proprietários?
Sady Jacques - É disponibilizado na web livremente (basta fazer download); é auditável (isto é, permite que se saiba exatamente como ele "trata" a informação); é mais eficiente e tem menos "bugs", em decorrência de sua construção e uso compartilhados (quando muitos constróem e muitos corrigem, a eficiência e eficácia são maiores); minimiza a obsolescência de computadores (aumenta sua vida útil, através dos conceitos de terminais de acesso e multiterminais); permite independência de fornecedores e de licenças (para ser corrigido, adaptado ou aperfeiçoado).
FYI - O software livre é mais seguro que o software proprietário? Por que?
Sady Jacques - Sim, por alguns bons motivos: primeiro, no caso do GNU/Linux, que sua política de acesso a diretórios é sofisticada, dificultando a intromissão de estranhos; segundo, porque os códigos livres são submetidos a milhares de testes e ajustes de falhas, de forma quase instantânea, o tempo todo; terceiro, porque os softwares proprietários, que ainda hoje hegemonizam o mercado, são repletos de falhas que tornam muito mais "produtivo" produzir ataques a eles, do que a sistemas e produtos robustos e livres.
FYI - Então, é mais fácil combater vírus usando software livre?
Sady Jacques - É mais fácil evitá-los, o que não significa que eles não existam. Mas significam, de fato, ameaça extremamente menor, comparados aos softwares proprietários tradicionais.
FYI - Quais os softwares livres mais utilizados hoje?
Sady Jacques - As muitas distribuições de GNU/Linux (Debian, Slackware, Gentoo, Ubuntu, Fedora, Red Hat, etc.); o navegador Mozilla Firefox; a suíte de escritório OpenOffice; o cliente de e-mail Mozilla Thunderbird; o editor de imagens GIMP.
FYI - Muitas pessoas utilizam o Mozilla Firefox, que é um dos mais importantes navegadores de internet, mas não sabem que é um software livre. Por que isso acontece?
Sady Jacques - Porque a característica de ser livre ou proprietário é uma característica interna, ou seja, para o usuário final o que aparece são coisas muito semelhantes, embora qualitativamente diferentes, tanto em ato (no produto em uso), quanto em potência (naquilo que o produto pode se tornar). É como comprar alimentos produzidos em larga escala, com agrotóxicos, ou comprar produtos orgânicos, produzidos de forma quase artesanal. Nos dois casos, é comprovada a qualidade de um em relação ao outro, mas ela não é percebida imediatamente pelo usuário e muito menos, relacionada com sua característica interna. É um processo de esclarecimento, conscientização, que precisa acontecer a seu tempo.
FYI - Por que o software livre, apesar de apresentar redução de custos, ainda tem uma participação pequena no mercado?
Sady Jacques - Não só apresenta redução de custos, como ainda diversas outras vantagens como robustez, escalabilidade, suporte 24 horas, auditabilidade, independência de fornecedor e segurança, por exemplo. Mas é relativa, essa participação "pequena" no mercado. O mundo do desenvolvimento de software começou de forma livre, através de compartilhamento e colaboração entre pesquisadores que desejavam resolver problemas complexos com ferramentas de programação. Mais tarde, alguns "aventureiros empreendedores" tiveram a esperteza de empacotar códigos, criando produtos (a partir de outros já existentes, inclusive) que, em um cenário onde não havia nada antes, acabaram populares e hegemônicos. Só mais recentemente é que o universo dos desenvolvedores simpáticos ao conceito de software livre, resolveu debruçar-se com mais determinação sobre esse segmento de softwares "populares", criando sistemas operacionais, ambientes gráficos, suítes de escritório, navegadores, comunicadores instantâneos e toda a sorte de aplicativos livres. Muito rapidamente alcançaram uma fatia de mercado e, basta analisar os números, para perceber a tendência de crescimento no uso, difusão e desenvolvimento de software livre, contra a tendência de retração dos softwares proprietários, comportamentos que sugerem avizinhar-se um cenário de equilíbrio destes mercados.
FYI - Que ações deveriam ser tomadas para mudar este cenário?
Sady Jacques - Estão sendo tomadas, pelos governos de diversos países, na forma de políticas e uso massivo de código aberto e software livre, pelas vantagens que oferecem. Também por grandes empresas, que buscam diferenciais competitivos em relação a seus concorrentes e, com este objetivo, migram redes inteiras para soluções livres.
FYI - O Brasil é um dos países referência em software livre. Quando começou este movimento no país?
Sady Jacques - Como foi dito, o desenvolvimento de software livre, isto é, de software construído de forma colaborativa e compartilhada, para uso de todos, começou cedo, nas universidades do mundo. No Brasil, não foi diferente. O que fez diferença, foi a organização do Projeto Software Livre Brasil, em 1999, com o propósito de promover essa idéia, através do uso, difusão e desenvolvimento de software livre e de código aberto no país. De lá para cá, foram realizados nove fóruns internacionais sobre o tema (o fisl), em Porto Alegre, considerados entre os cinco maiores eventos do gênero no mundo. Esse ponto de encontro acabou tornando-se o epicentro de uma grande agitação que fomentou e fomenta esse tema pelo continente sul americano e mesmo para além dele, em função da quantidade e qualidade das pessoas envolvidas neste processo. Atualmente, a Associação Software Livre.Org, criada para executar essa missão, está em pleno trabalho de organização do fisl10, o qual ocorrerá de 24 a 27 de junho de 2009, na PUCRS, prevendo a presença de mais de dez mil participantes nacionais e internacionais.
O SL no mundo dos negócios
Conforme pesquisa do Instituto Sem Fronteiras (fevereiro/2008):
- O software livre é usado em 73% das grandes empresas brasileiras (com mais de mil funcionários);
- 53% das maiores empresas usam a linguagem de código aberto em sistema operacional;
- 56% das empresas brasileiras utilizam software livre nos servidores;
- Entre as empresas que utilizam software livre, 48% mencionaram a utilização em aplicações de missão crítica.
De acordo com pesquisa do Gartner (novembro/2008):
- 85% das companhias globais já estão usando programas desse tipo, enquanto os 15% restantes dizem que adotarão soluções abertas em até cinco anos;
- o uso do software de código aberto tem acontecido principalmente por conta da redução de custos e da facilidade para adequá-lo a novos projetos.