O mercado financeiro se especializou, nas últimas décadas em criar instrumentos financeiros complexos. CDB, RDB, Debêntures, Notas Promissórias, Moedas de Privatização, CRI (Certificado de Recebíveis imobiliários), CCIM (Cédula de Crédito Imobiliário), LCI (Letra de Crédito Imobiliário), Letra Hipotecária, FDIC, Letras de Câmbio, Export Notes, CCB (Cédula de Crédito Bancário), CCCB (Certificado de Cédula de Crédito Bancário), Swaps de Fluxo de Caixa, Swaps de Crédito, Contratos de Estratégia (Box), entre outros. A lista é enorme e diretamente proporcional com o nível de complexidade e dificuldade que os gestores do mercado financeiro têm em operá-los.
O sistema financeiro mundial está em crise. Acontecimentos como o Estouro da bolha da internet (2000), Fraudes contábeis e Fiscais da Enron (2001), Atentados de 11 de Setembro (2001) levaram os Bancos Centrais Europeu e dos Estados Unidos a injetarem alguns trilhões para evitar a bancarrota do sistema financeiro. Foi neste momento que o ciclo perverso do mercado começou a se formar. O dinheiro injetado aumentou a liquidez no mercado financeiro pressionando para cima os preços dos imóveis nos Estados Unidos, ações das empresas em países emergentes e preços das commodities ao redor do mundo. Este excesso de liquidez gerou uma gigantesca bolha de crédito dos Estados Unidos. Milhares de americanos foram aos bancos tomar dinheiro emprestado. Casas foram hipotecadas e o dinheiro gasto em bens de consumo baratos oriundos do mercado chinês.
Ao emprestar um excessivo volume de dinheiro, os banqueiros criaram instrumentos que os protegessem contra a inadimplência. O CDS - Credit Default Swap - um destes instrumentos, será a grande bomba que explodirá no mercado financeiro nos próximos anos.
Podemos dizer que o CDS é uma garantia contra inadimplência. Para explicar pegamos como exemplo os três maiores bancos do mundo - Bank of América, Citibank e HSBC e as três maiores empresas americanas em valor de mercado - Exxon Mobil (Petróleo e Gás), General Eletric (Eletroeletrônicos), Microsoft (Software e dados).
Digamos que o Bank of América emprestou centenas de bilhões de dólares a Exxon. Receoso de uma eventual inadimplência foi até o Citibank e propôs comprar um seguro contra o calote da Exxon, oferecendo pagar parte dos juros que receberia na transação para ter a garantia de que se a Exxon não honrasse seu compromisso o Citibank assim o faria. Concomitantemente suponhamos que o Citibank emprestou rios de dinheiro para a General Eletric e, com receio de calote, propôs ao HSBC a mesma operação que o Bank of America o havia proposto. Ao mesmo tempo o HSBC fez um empréstimo bilionário a Microsoft...Onde isso pode parar? Qual o impacto destas transações todas? Consultei algumas fontes que estimam em US$ 40 trilhões de dólares o valor atual destas transações, ou seja, 4 vezes o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano. Há a possibilidade desta volumosa concessão de crédito continuar, ainda mais neste cenário de incertezas e desaceleração econômica? Se não há, como assim acredito, qual problema que isto pode acarretar?
Atualmente a inadimplência, que faz com que os bancos tenham que emitir CDS para honrar seus compromissos, é a menor da história, sendo próxima a zero. A questão é que vivemos um momento de economia norte-americana com produção industrial baixa e desemprego e inflação em alta. O lucro das empresas dos EUA terá redução importante e a capacidade das mesmas em honrar seus compromissos tenderá a diminuir de maneira significativa. Se isto ocorrer, os bancos que emitiram CDS terão de reduzir, e muito, a concessão de crédito às empresas e ao consumidor para não quebrar. Isso poderá acarretar em um longo período de desaceleração econômica. A recessão pressionará para baixo os preços dos imóveis nos Estados Unidos, ações das empresas em países emergentes e preços das commodities ao redor do mundo, tudo o que, no início do post, comentei que havia subido muito nos últimos anos.
Se esta história se confirmar, a crise do sistema financeiro pode perdurar por longos anos. Há um limite para lançamento dos “empréstimos podres” pelos bancos sem que isto impacte seriamente nos seus balanços. Em virtude disso, novos financiamentos dificilmente serão concedidos. O impacto disto na economia mundial? Largamente maior e muito mais grave do que este cenário de turbulência financeira causa pelo Subprime. CDS, vocês ainda ouvirão falar muito dele.