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Escrito por Rafael Francisco Antoniolli
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05-Out-2008 |
Por que o Mico está em voga no contexto econômico do momento? O pacote de US$ 850 bilhões aprovado pelo congresso americano tem a missão de salvar o sistema financeiro mundial. Isso os leitores sabem e não vou ficar repetindo os mesmos bla bla blas noticiados na última semana... Porém, o desconhecido para alguns é que nessa aprovação consta a redução de pagamentos milionários aos executivos que estão por trás das instituições financeiras que quebraram. Apresento para os senhores a fauna do FYI!
Muito do que se passa na economia a gente nem sequer imagina como que acontece. Na boa, as vezes me divirto lendo artigos de especialistas falando que o Fulano tá certo e outros que não, é o Ciclano! Escutei nessa mesma semana que o mercado hipotecário dos EUA pode chegar a valer cerca de US$ 6 trilhões somente nos "ativos" lastreados do subprime. Para se ter uma idéia, isso representa quase metade dos US$ 13,2 trilhões que correspondem ao PIB americano de 2006 - fonte Us Census Bureau.
Se isso for efetivamente verdadeiro, são 850 bilhões para "honrar" 6 trilhões. Paliativo, não acham!? Conclusão: Alguém está com o Mico!
Quem sabe o que é o Jogo do Mico? Bem simples, trata-se de um jogo de cartas onde o objetivo é ir formando pares. O jogo segue dessa forma até que um jogador fique com uma única carta na mão. Essa carta é a chamada de “mico”, pois o par dela deverá ser a carta que está no centro da mesa. Achei extremamente oportuna essa relação que um colega meu do banco onde trabalho fez a respeito do momento do mercado, pois é provável que uma instituição financeira esteja segurando o mico na mão - ou vários miquinhos!
Claro, to sendo bem genérico. Os títulos do subprime obviamente não têm os mesmos prazos de pagamento, então certamente não ocorreriam as liquidações de uma vez só. Mesmo assim, o negócio é muito sério.
Pois bem, a principal crítica do congresso americano em relação ao primeiro pacote que foi rejeitado era justamente a não punição dos causadores do Mico. A reportagem "Bote um limite nos pagamentos dos CEOs" publicada pela revista BusinessWeek é anterior a esse episódio mas fala justamente sobre os exorbitantes salários que altos executivos t em ganho nos Estados Unidos e o que Peter Drucker escrevia e pensava a respeito.
Para quem não sabe, Peter Drucker é provavelmente o teórico em administração de empresas mais famoso e citado de todos os tempos. Seus conselhos com certeza ajudaram muitos CEOs a ficarem milionários. Jack Welch, por exemplo, fez uma menção especial a Drucker logo após sua morte em 2005:
"Se algum dia houve realmente um sábio da gestão, esse é Peter."
Drucker publicou em seus artigos e livros o "desastre" que os astronômicos salários de CEOs podem fazer para uma organização. Ele falava diretamente para aqueles colaboradores pertencentes às áreas gerenciais, com capital intelectual suficientes para interagir com as direções das organizações. Segundo Drucker, "permitir uma enorme disparidade entre rendas corrói a confiança mútua entre grupos que vivem e trabalham juntos". O interessante é que ele propõe aos principais executivos que não se ganhe mais do que 25 vezes a média salarial do trabalhador de uma compa nhia.
A reportagem foi feita bem na época da quebra das agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, onde é feita a afirmação que a demissão dos 2 presidentes dessas companhias gerou em compensações e benefícios mais de US$ 24 milhões para os executivos. Adicionalmente, mostra o dado que os CEOs das 500 maiores empresas dos EUA contidas no ranking da Standard & Poor's receberam cada um em média US$ 10,5 milhões no ano passado.
Eu vou "humildimente" discordar com o Sr. Drucker. Acredito que não se possa fazer este tipo de convenção salarial nos mercados. Isso porque os executivos que ganham todo esse dinheiro se pagam. A remuneração variável existente hoje nas empresas garante esse valor. A reportagem da Exame "Executivos que valem Milhões" explica bem como isso é feito - e mostra que o percentual ganho com o desempenho das companhias acirra ainda mais a disputa entre elas pelos "novos milionários do Brasil".
Agora, o Mico para mim tem outra conotação. As decisões das cúpulas executivas de bancos e instituições financeiras foram feitas dentro de um cenário sem regras regulatórias. Instituições financeiras que não podiam mas funcionaram como bancos comerciais, captando recursos no curto prazo e aplicando em títulos podres de longo prazo como a casa de um Joe Doe qualquer. A avareza humana só foi permitida porque não há regras para tal - e não me parece que o Mico seja somente daqueles que representam os bancos, mas sim dos Bancos Centrais que SABIAM e permitiram que houvesse a possibilidade de um colapso sistêmico que vemos hoje.
E ai, de quem é a culpa do Mico?
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